quarta-feira, abril 12, 2006

ERA UMA VEZ...(CAP.2)


O cóop. Sentiu instalar-se no corpo uma náusea que parecia mexer com todos os órgãos do abdómen , lhe apertava a garganta não o deixando emitir qualquer som e lhe toldava a vista, como se uma tontura o transportasse para outro mundo.
Uma maca, a mesma que tinha sido usada para transportar o ferido, saía também pela porta do banco como que puxada por uma “junta de enfermeiros” igualzinhos, carecas por fora e por dentro. O corpo vinha descoberto, como tinha entrado, e tinha o braço esquerdo curvado sobre a testa, como que a não querer ver. Deve ter morrido a não querer ver o que deixava para trás.
“ Quem o trouxe que o leve ,que aqui não é casa mortuária”
Finalmente o cóop conseguiu, começar a pensar,: reviu os passos que o conduziram àquele quadro dantesco, os gemidos que registou durante o transporte davam-lhe a certeza que tinha trazido um vivo e não um cadáver. Queria pôr-se de fora mas não o deixavam! Lembrou-se da muamba que o esperava, sentiu que estava a iniciar-se uma luta, não contra a fome, mas contra um sistema onde a vida valia menos que uma muamba fria. Virou-se para o militar que o tinha metido nesta alhada: ”Então responsabilize-se lá, como disse há pouco que faria!
O infeliz militar não sabia onde se meter, lamentava-se por ter nascido naquela terra, pedia desculpa, que nunca mais voltaria a fazer que não havia direito etc. etc.
O cóop já não tinha dúvidas , mas confirmou que estava mais que sozinho, perante um poder bestial numa noite escura, rodeado de mentes escuras, no pátio escuro, de um hospital escuro, onde invocar qualquer direito de cidadania parecia uma anedota.
“Quando eu o trouxe não era cadáver, era um ser vivo que vos foi entregue para ser tratado e salvo se possivel!”
“ah.ah.ah, se calhar foi você que o atropelou! Então tome-o lá e leve-o daqui”.
Nesta altura a maca ultrapassou a junta de tracção animal e rolou até ao cóop. que a imobilizou para que a viagem não fosse mais longa e não se estatelasse contra o renault 4 de cor vermelha e vermelho por dentro. Quando olhou novamente para a porta do banco viu os dois carecas de bata branca, já de costas, de regresso à sua humanitária missão..... Junto ao cóop. postaram-se os dois polícias do piquete de serviço, com ar cândido e um sorriso a preto e branco, como quem se propõe fazer um favor , ou dar uma informação útil: “ O camarada mais velho tem que lévar o morto para a judiciária!
Nós já contactamos o chefe pelo rádio e dissemos qui vocês iam mesmo mesmo a sair
daqui.”.
“ Nós quem? Eu vou lá, levo comigo este militar que tem vindo a acompanhar-me e de seguida vou para casa que já estou atrasado!”
“Está bem, nas leva o morto consigo!”
“Então tome as chaves do carro , requisitado por si, com a sua autoridade, transporte o morto para a judiciária e eu fico aqui a aguardar, sob prisão se quiserem!”
“Não pode ser, o camarada mais velho deve levar as coisas a bem... eu não sei guiar e o morto não pode ficar aqui!” Enquanto isto, as mãos esquerdas de ambos acariciavam as coronhas das pistolas, que sobressaíam das respectivas bolsas.
“ OK você leva o morto e, como não sabe guiar, eu guio o carro até lá” Foi o melhor que o cóop. conseguiu e lá foram a caminho da judiciária: à frente o cóop.,o militar e o polícia e a trás o morto ,deitado, ocupando dois lugares e ainda com o braço esquerdo dobrado sobre a fronte a não querer ver o que lhe estava a acontecer.
Chegados á judiciária, saíram os vivos, ficou o morto .
O coop. Foi apresentado ao chefe de serviço que o recebeu com um sorriso mais ou menos familiar e que o convidou a sentar-se.
“O camarada mais velho está com sorte!”
Com esta o cóop. quase consegui rir! Felizmente não o fez porque sairia com certeza qualquer coisa delirante e desabrida a indiciar princípios de loucura.
“Então o que seria se eu não tivesse sorte!”
“ Tinha que ficar preso até que o culpado aparecesse! Mas felizmente para si o culpado veio entregar-se há pouco. Vinha com excesso de velocidade! Fugiu para não ser apanhado pelo povo. E já está preso. Portanto o camarada mais velho pode ir-se embora, e muito obrigado.”
O cóop. sentiu momentaneamente uma sensação de alívio, estava livre! Livre, absolvido , sem qualquer culpa e finalmente alguém reconheceu e lhe agradeceu o acto humanitário! Finalmente podia ir comer a sua muamba e descansar do dia de trabalho e das emoções das ultimas horas! Levantou-se dispunha-se a sair, ia começar as despedidas mas, de repente, novamente uma nuvem negra pairou sobre a sua cabeça! Lembrou-se do 4º passageiro do renault e um frio pressentimento deixou-o tenso e angustiado!
Virou-se para o chefe e perguntou:
E o morto que está no meu carro? Vai dormir comigo?.....

2 Comments:

Anonymous Mariana said...

Até que enfim! Isto promete!
Espero pelo próximo capítulo!
Beijo,

4:42 da tarde  
Blogger Luz Dourada said...

Nunca pensei que o meu amigo tivesse geito para cangalheiro! Isto de ser cangalheiro à força, tem muito que se lhe diga....e depois deste "prato", não haveria moamba possível a poder escorrer pelo garganete abaixo, digo eu de que...

11:14 da manhã  

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